Mãe, tudo o que eu queria hoje era correr! Pegar uma via expressa, uma trilha na mata, uma beira de praia e só parar quando os sapatos apertassem. Fugir, mãe, fugir. Inventar uma melodia minha, gravar na mente e fugir. Largar os cachecóis, as malas, os casacos, os chapéus. Depois as meias, as camisetas largas e se possível, todas as minhas dores também. Do mais externo, ao mais interno, tudo o que eu queria agora, mãe, era o brilho da falta das lembranças. Não há brilho de estrelas hoje para mim. Tudo o que eu queria era arrancar os sapatos, os pesos de papel que me prendem ao chão e, na velocidade da luz, atravessar o mundo até me desmanchar em pedacinhos de poeira. Eu gostaria de me tornar uma nebulosa essa noite. Dormir no fim do percurso longo, eternamente, pelo universo. Mãe, é que eu cansei de ser gente. Eu cansei de sentir feito gente. Hoje eu quero voltar sozinha para o interior de um buraco negro, ainda que isso seja o maior perto do dramático que posso chegar. Cansei de ser um drama. Hoje, eu só queria fechar os olhos e correr até sentir os pés flutuarem. Eu cansei do peso do meu mundo. Hey, mãe! Eu gostaria de deixar tudo para trás. Hoje, eu gostaria de explodir, como os fogos de fim de ano, que se consomem em química e todo mundo aplaude.
rio-doce
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